19 de março de 2014

Cumplicidades silenciosas em todas as vidas

"(...) sentia o insaciável desejo dos artistas, que é encontrar encorajamentos em todas as bocas, admiração em todos os olhares, cumplicidades silenciosas em todas as vidas (...)"

Élie Faure, Paul Cézanne

15 de março de 2014

"Oui, cette librairie n'a pas été simplement un refuge mais aussi une étape dans ma vie. J'y restais souvent jusqu'à l'heure de la fermeture. Une chaise était placée près des rayonnages ou plutôt un grand escabeau. Je m'y asseyais pour feuilleter les livres et les albums illustrées. Je me demandais s'il se rendait compte de ma présence. Au bout de quelques jours, sans interrompre sa lecture, il me disait une phrase, toujours la même: "Alors, vous trouvez votre bonheur?" Plus tard, quelqu'un m'a déclaré avec beaucoup d'assurance que la seule chose dont on ne peut pas se souvenir c'est le timbre des voix. Pourtant, encore aujourd'hui, au cours de mes nuits d'insomnie, j'entends souvent la voix à l'accent parisien - celui des rues en pente - me dire: "Alors, vous trouvez votre bonheur?" Et cette phrase n'a rien perdu de sa gentillesse et de son mystère."

Patrick Modiano, Dans le café de la jeunesse perdue

10 de fevereiro de 2014

- Mais si le spectateur cinématographique ne se trouve pas en face d'un personnage réel, croyez-vous que cela puisse gêner son identification au personnage ? Autrement dit, est-ce que le spectateur cinématographique, qui n'a donc devant lui que des fantômes, ne s'identifie pas aussi bien à un fantôme qu'à un acteur fait de chair et de sang ?
- Pour cela, il faut être très bon public.

(Entretiens sur le cinématographe, Jean Cocteau)

4 de fevereiro de 2014

Le privilège du cinématographe

"Le privilège du cinématographe, c’est qu’il permet à un grand nombre de personnes de rêver ensemble le même rêve et de montrer en outre avec la rigueur du réalisme les fantasmes de l’irréalité. Bref, c’est un admirable véhicule de poésie. Mon film n’est pas autre chose qu’une séance de striptease consistant à ôter peu à peu mon corps et montrer mon âme toute nue. Car il existe un considérable public de l’ombre affamé de ce plus vrai que le vrai qui sera un jour le signe de notre époque. Voilà le lègue d’un poète aux jeunesses successives qui l’ont toujours soutenu."

(Jean Cocteau, Le testament d'Orphée)

28 de janeiro de 2014

We shall overcome, some day. 
Oh, deep in my heart, I do believe 
We shall overcome, some day. 

We'll walk hand in hand, some day. 
Oh, deep in my heart, I do believe 
We shall overcome, some day. 

We shall live in peace, some day. 
Oh, deep in my heart, I do believe 
We shall overcome, some day. 

We are not afraid, today 
Oh, deep in my heart, I do believe 
We shall overcome, some day. 

23 de janeiro de 2014

Vous n'avez encore rien vu

Alain Resnais, entre os vivos, pertence já aos deuses - pergunto-me mesmo se não será como os deuses antigos cujas histórias lemos e que, tomando a forma humana, pegam na realidade para fazer dela um jogo de percepção seu, onde sentimentos respondem a sentimentos, actos respondem a palavras, palavras respondem a olhares. Nada surpreende mas tudo espanta, nada se desfaz mas tudo renasce. Esse jogo com a realidade, tal como esses deuses, Resnais fá-lo porque nada é sem os seus - os rostos humanos que vivem nos actores e as pessoas que se dão à sua encenação. Essa encenação, é sobre nós e para nós, devolvendo-nos a vida com cada poro que se respira -  mas sem vangloriá-la -, celebrando o seu movimento, a sua encenação, os seus efeitos, trazendo a verdade para aquilo que vem do artifício. Resnais foi para o cinema e tornou-se cinema, e tal como esses deuses, tudo aquilo em que toca move-se para além do que se explica e se espera. 

De forma bem mais simples, a minha maneira de celebrá-lo é dizendo: há duas horas atrás, a minha vida pouco me parecia interessante (dentro da ficção que decidi criar para mim, esta noite, antes de me entregar aos sonhos), mas depois de Vous n'avez encore rien vu, sinto que tudo vi na vida e tudo terei ainda para ver em tudo o que vier pela frente. 

Não há lições no cinema de Resnais, há uma vontade de viver e aceitar tudo o que a vida tem de bom, de mau, de bonito, até de feio, e sobretudo, vendo o verdadeiro no falso, e o pequeno jogo falso que fazemos para nós a partir do que sentimos ser verdadeiro. Amour, amour, je t'aime tant, cantava-se numa outra música, num outro filme. Pego nessas palavras e canto-as para mim embalado pelo movimento de Resnais, também me dizendo que me ama porque sem o meu olhar, nada dele, nada de mim existe. 

10 de janeiro de 2014

"A distinction is made between artists who work directly from nature and those who work purely from imagination. Neither of these methods should be preferred to the exclusion of the other."

Henri Matisse

31 de dezembro de 2013

Café cantante

Lâmpadas de cristal
e espelhos verdes.

No tablado sombrio,
a Parrala sustém
uma conversão
com a morte.
Chama-a,
não vem,
e volta a chamá-la.
Os homens 
aspiram os soluços.
Nos espelhos verdes
longas caudas de seda
agitam-se.

F. Garcia Lorca

23 de dezembro de 2013

Merry Xmas Llewyn Davis

He was a friend of mine, he was a friend of mine
Every time I think about him now, Lord I just can't keep from cryin' 
'Cause he was a friend of mine 

He died on the road, he died on the road 
He never had enough money to pay his room or board 
And he was a friend of mine 

I stole away and cried, I stole away and cried 
'Cause I never had too much money and I never been quite satisfied 
And he was a friend of mine 

He never done no wrong, he never done no wrong 
A thousand miles from home, and he never harmed no one 
And he was a friend of mine 

He was a friend of mine, he was a friend of mine 
Every time I hear his name, Lord I just can't keep from cryin' 
'Cause he was a friend of mine.

12 de dezembro de 2013

Adèle, c'est moi

Os últimos passos da Adèle de Kechiche fazem com que ela não parta sozinha, nem nós quando o filme depois se fecha - iremos juntos com ela até a esse futuro que desconhecemos mas que sabemos ser inevitável para quem deseja viver, amar, fazer os seus lutos. 

Essa Adèle que caminha connosco no fim do filme leva-me inconscientemente a uma outra que, com o passar dos dias, me faz voltar a um filme - a Adèle de Truffaut, Adèle H., sem apelido, por ser filha do homem mais famoso do mundo (Hugo), e por procurar, ardentemente, desesperadamente, o seu próprio amor, o concretizar da sua paixão que transportou da sua vida e do seu olhar para alguém que ela já amou. Um amour fou que se torna obsessão até cair na loucura, estado máximo da solidão e, também, desse amor que deseja conquistar tudo - viajar por um oceano, recusar todos os estados civis, recusar todos os nomes, e ser apenas essência, sem corpo, sem mente, apenas abstracção do sentido mais poderoso (e mortífero) de todos.

Essa Adèle vive também comigo e reencontro-a, sozinha, numa prateleira de uma loja dentro de muitos outros filmes. No meio desse cinema todo, Adèle partiu sozinha e terminou a sua vida sozinha, mas amou como ninguém (e como ninguém pode amar). Há uma parte de mim que conhece Adèle e que sabe, talvez (arrisco), aquilo que ela viveu. Outra parte sabe que essa vida fica no cinema, não se pode viver na realidade. Teorias, passados, e futuros de lado, olho para essa capa do filme, no meio de todas as outras que outras pessoas levam para as suas casas, para as casas de outros, vejo-a no seu rosto puro, absoluto, e que fala por todos os nomes, e penso, com todo o meu calor e a minha temperança - Adèle, c'est moi.