"Ils pensaient à la mort comme à un fruit de l'amour, à quelque chose qu'ils atteindraient ensemble, peut-être demain."
(Jules et Jim, Henri-Pierre Roché)
"Il faut excuser les solitaires; ce qu'ils écrivent ressemble aux lettres d'amour qui se sont trompées d'adresse." J. Rivette
19 de setembro de 2013
13 de setembro de 2013
"Gosto de pensar no espectador não como um consumidor mas como um cidadão."
Victor Erice (Ípsilon, 13/09/13)
11 de setembro de 2013
À quoi penses-tu, Séverine?
É noite escura e os meus olhos começam a fechar com sono. Mas sei que o que guardo em mim e para o qual ainda não descobri palavras irá deixar-me despertado até que seja o sonho a conquistar-me, lentamente. Como se me esquecesse, por fim, de querer saber como montar a vida que vivemos, deixando-me depois levar por um imaginário onde a contradição não tem valor e o seu poder se deseja apaixonado. Si vous aimez l'amour, vous aimerez le surréalisme.
5 de setembro de 2013
"Ce n'est pas l'amour qui dérange la vie, mais l'incertitude d'amour. Je suis sans espoir, je sais seulement qu'il faut tenir, il faut tenir, il faut tenir. La vie est faite de morceaux qui ne se joignent pas."
24 de agosto de 2013
J'ai compris votre fuite, Antoine
"Quand j’étais au collège, mon professeur nous expliquait la différence
entre le tact et la politesse. Un monsieur en visite pousse par erreur
la porte d’une salle de bains et découvre une dame absolument nue. Il
recule aussitôt, referme la porte et dit : "Oh, pardon, madame !",
ça, c’est la politesse. Le même monsieur, poussant la même porte,
découvrant la même dame absolument nue et lui disant : "Oh, pardon,
monsieur !", ça, c’est le tact."
23 de agosto de 2013
A delightful evocation of Renoir
"Then she appeared. A door opened behind me; there was a blur of soft material as Marilyn sped swiftly into Miller's arms, not looking at me until she was hugged in his bear-like embrace. Then she slanted a shy, sleepy smile at me. I had never seen this Marilyn before, in any film or photo. This was no hot sex symbol; this was a little girl, with her face pressed into Daddy's chest, shyly curious of a visitor.
Her face was still rosy, flushed from sleep, and her buttercup-gold hair tangled like a Botticelli cherub. Her eyes had the unreal clarity of the porcelain eyes in a doll; large, wondering, wide apart and slightly turned down at the outsides; and the mouth, timorously half-parted lips; the saucy turned-up nose - here indeed was a delightful evocation of Renoir."
(Magic Hour, Jack Cardiff)
21 de agosto de 2013
Ce que nous avions en face II
Ontem foi um dia duro, duríssimo, como se o país onde vivemos nos dissesse que o percurso que fizemos e tentámos alimentar nele não fazia sentido de existir. Já o tinha escrito dias antes - a trágica sequência de acontecimentos que mostrava a total ausência de política, de ideias, ou de mera preocupação perante uma matéria que nos forma (e não apenas um sector - a cultura é isso mesmo, algo de vivo que nos forma e nos torna mais abertos, curiosos, e tolerantes), teria como consequência última o fim de um país: sem imagens, sem pensamento, sem história(s). O facto de se chegar a este ponto - deixar que uma instituição como a Cinemateca nacional, após anos de medidas e regulamentações que conseguiram destruir o seu funcionamento, não consiga simplesmente trabalhar -, mostra que é a ausência total de política cultural que acaba por determinar a nossa falência. Não há volta a dar a este facto: a falência financeira está invariavelmente ligada à falência cultural, e a história recente do nosso país mostra que, sem este trabalho e perante a sua crescente desvalorização, nunca aprenderemos a gerir os nossos recursos. A ausência de política - não apenas na cultura mas também noutros sectores -, abre portas às políticas más; a ausência de pensamento e de fundo na tomada de decisões (afastando quem trabalha nesses sectores e é formado neles), traz inevitavelmente a destruição desses recursos. E nunca conseguiremos crescer enquanto pessoas para cumprir os nossos desejos - artísticos, culturais, económicos.
Perante este sentimento de descalabro e de falhanço pessoal - porque somos nós que compomos o nosso país, não deveríamos ser corpos diferentes e separados -, surge ainda, como essa mesma casa me ensinou através das imagens deste mundo, um resto de esperança, de desejo de criar, de usar a nossa inspiração e os nossos sonhos para afastar a frustração e os bloqueios, pois as vidas continuam a ser nossas. Não por acaso, Frank Capra também anda na minha cabeça - ele mesmo instalou esse vírus que nos salva quando nos encontramos perante um abismo: "Film is a disease. When it infects your bloodstream, it takes over as
the number one hormone; it bosses the enzymes; directs the pineal gland;
plays Iago to your psyche. As with heroin, the antidote to film is more
film". Ou como quem diz, o antídoto para a morte é vida e mais vida. Venha a esperança nessa descrença, pois precisamos de estar à altura dos nossos desejos. E porque as vidas são sempre nossas, é nos tempos de vazio que precisamos de ver ainda melhor o que está e sempre esteve à nossa frente.
15 de agosto de 2013
Ce que nous avions en face
"Les mouvements de caméra sont toujours difficiles pour moi mais, à cette époque, je raisonnais ainsi : quand nous attendons longtemps quelqu'un qui arrive de loin, nous ne cessons de le regarder. Nous attendons qu'il arrive car il n'est pas un passant ordinaire, il est si important pour nous que nous fixons notre regard sur lui et nous ne découpons pas le plan. Les découpages étranges, dont je ne comprends pas le but, n'ont jamais été à mon goût, comme ces découpages à huit ou dix plans qui ne laissent pas voir la scène. Parfois, la réalité même nous dit qu'il ne faut pas découper le film, et que pour s'approcher des gens, il ne faut pas nécessairement rapprocher la caméra. Il faut attendre, se donner du temps pour bien voir les choses et les découvrir. Parfois, le gros plan ne signifie pas être tout près; au contraire, il engendre l'éloignement. Je voyais que toutes les règles que nous avions apprises dans les livres ne marchaient pas en pratique avec ce que nous avions en face."
Abbas Kiarostami (Abbas Kiarostami, Alain Bergala, ed. Cahiers du Cinéma)
14 de agosto de 2013
O cinema português sem movimento
Depois de surgirem, mais uma vez, novos números que indicam que os espectadores nas salas de cinema, em Portugal, se reduzem de forma alarmante, que as operadoras de televisão se recusam a cumprir a negociada e implementada lei do cinema, depois de meses do fecho e reabertura do segundo maior exibidor de cinema no nosso território, talvez pouco precisássemos ainda para perceber que o sector do cinema, em Portugal, vive profundamente dividido, disfuncional, e inoperante. Cinema e televisão continuam a viver de costas voltadas (já nem perguntamos que cinema português passa na televisão de sinal aberto, perguntamos - que cinema?, simplesmente), o público continua perdido no mapa esquizofrénico de distribuição (dirigindo-se a salas sem qualquer espécie de identidade ou de programação, uma capacidade que já foi retirada pelo próprio Estado à sua sala de cinema - a Cinemateca Portuguesa -, sim, uma sala que é sua e que assim o é para cumprir uma função), e, sobretudo, completamente alheado de uma ideia simples, básica, humana, enterrado num preconceito que ainda existe contra quem faz cinema, por que o faz, e que filmes devem ser feitos.
A culpa, no entanto, não é do público português: já são longos anos em que, da ideia de desenvolvimento para Portugal, sempre se alheou a da formação do nosso olhar para entendermos o mundo, gerirmos a nossa vida, vivermos na nossa comunidade, ou, simplesmente, enriquecer e abrir as nossas mentes, porque esse é dos sinais mais reconhecidos de uma sociedade rica, recusando a sobranceria de quem quer fazer da cultura algo de inacessível, especial, ou reservado aos seus, ou de quem a rejeita por ver aí uma ameaça da terrível minoria do intelecto. Toda esta contradição teve um ponto explicitamente alto quando um ex-Secretário de Estado da Cultura chegou a defender, na mesma intervenção, que uma das prioridades do seu mandato era a aposta na formação (mandato que durou pouco mais de um ano), mas que não acreditava na expressão "políticas culturais". Nos vários campos políticos portugueses, os complexos em relação à cultura são de tal ordem que se chega a este ponto: a recusa de que a política cultural é algo de natural e não ideológico, ao ponto de querer "banir" as suas próprias palavras da linguagem.
Neste momento, acontece um mesmo evento de "formação" no nosso país: a mostra de vários filmes portugueses em dezenas de localidades, pelo nosso território, que nunca assistiram à projecção de um filme português nos últimos nove anos. Se bem que esta possa ser vista como um acção louvável - levar cinema a quem não o tem -, não será, precisamente, por acções destas - isoladas no tempo, respondendo ao vazio com um evento efémero e não com uma presença regular e constante junto da sua população -, que o público português irá acordar para o cinema do seu país. Mas um olhar para a sua programação revela um dado ainda mais alarmante: a esmagadora maioria dos filmes projectados correspondem à chamada facção (triste estado do cinema, aquele que está dividido por facções) do "cinema comercial", ou seja, do cinema que é feito para o "grande público" (sim, aquele que já não vai às salas e deixa o segundo maior exibidor cair na falência).
A crítica, aqui, não se prende pela suposta qualidade (ou não) dos filmes - se bem que, se estivéssemos a falar de formação do olhar, de um trabalho feito sobre as pessoas para estas desenvolverem a sua forma de olhar para o mundo (sim, é possível fazer isto no seu mais puro respeito e vontade, sem arrogância e prepotência), teria necessariamente de existir uma ideia mínima de programação por quem trabalha sobre isso (sim, é um trabalho, e sim, dirige-se a todos - todos). A crítica está em, precisamente, essa política do gosto vir de parte do próprio Estado, ao incluir filmes que alguns desses espectadores, mesmo nos cantos mais escondidos do nosso país, já terão visto passar nas raras vezes que a nossa televisão mostra filmes portugueses, recusando a diversidade da sua mostra, ou mesmo algumas das obras que maior correspondência terão recebido a nível internacional - aquelas que são referidas, fora dessas aldeias e mesmo de Portugal, quando se fala de cinema português.
Pegamos noutro evento, também a acontecer neste momento - e que também deseja dar a conhecer o cinema português a quem nunca o viu -, para percebermos, de forma ainda mais clara, a diferença de visões que existe entre como o cinema português é visto dentro do nosso território pelas entidades que o gerem, e fora do nosso território por quem procura vê-lo (em festivais, em mostras, no circuito comercial). Na Primeira Semana do Cinema Português, em Buenos Aires, a sua programação é radicalmente oposta, ao ponto de acharmos que se tratam de dois países diferentes. Aqui, a crítica é justa: tratam-se de filmes que abrem o nosso olhar para outros mundos, filmes recompensados e reconhecidos, tanto pelo público como pela crítica no mundo inteiro, como olhares originais sobre o mundo feitos a partir do nosso país (e quando se diz originais, não se diz exclusivos e fechados, pelo contrário). Na Primeira Semana do Cinema Português, os espectadores argentinos terão a oportunidade de ver como Portugal olha para o mundo - e por aí, incluirem-se nessa visão para enriquecer os seus sentidos e desafiarem aquilo que conheciam, através de uma formação do olhar que não se deseja identitária, mas humana (por cingir sobre os sentidos).
Em Portugal, enquanto se continuar a recusar a ideia de que o Estado tem de intervir na formação do olhar - e ao fazer isso, aplicar a sua política no respeito mais alargado, tolerante, e menos ideológico possível sobre o tecido artístico e industrial português (e ao se dizer o Estado, que a sua acção passa por chamar quem trabalha nessas áreas e dedica o seu próprio olhar a essa formação e investigação), as várias facções continuarão a ser facções, as leis continuarão a ser incumpridas e rasgadas, o divórcio entre agentes fará a regra, e o público português continuará a passar ao lado do seu desenvolvimento.
9 de agosto de 2013
De l'espoir dans sa crainte et de la crainte dans son espoir
Talvez um rapaz de trinta anos não devesse pensar tanto nisto, mas acabamos por viver também o que a vida nos dá na sua passagem, relembrando-nos que, por cada desaparecimento e cada adeus que nos vemos obrigados a fazer, surge a obrigação de continuar os nossos passos e o nosso dever de criação. A vida é efémera e passageira, mas imensa e maravilhosa. É a maior das contradições e é tudo isso que nos move, não há solução para ela pois ela não nos pede nenhuma. Talvez seja essa a pequena aprendizagem da maturidade.
Por isso, não será estranho num dia em que se celebra a vida, como no seu aniversário, que se pense também na morte. Dos momentos mais tocantes que vivi numa sala de cinema foram no mergulho em filmes e histórias de Frank Capra - nunca tanto como nessas obras se celebraram de forma tão comovente o que a vida nos oferece e, sobretudo, o que ela ainda tem para oferecer, pois a sua comoção surgia, precisamente, perante esse perigo, essa ameaça, e, depois, com a interiorização do fim de todas as coisas. Por se estar sempre no limiar dessa escuridão, ou do desespero que fazemos quando a sentimos chegar, é que surge o seu exacto oposto: uma euforia de viver, um desejo tremendo e absoluto de amar quem está à nossa volta e que vemos como provas de vida, de amor, de amizade. E assim, de dar os grandes passos que a vida nos pede para fazer - os da coragem e da curiosidade. Crescer como o Mr. Smith até à altura do Capitólio e do seu sonho de sociedade até ficar sem voz, subir até ao céu por momentos e regressar, pela via dos anjos, como aconteceu a George Bailey, para perceber que o paraíso estava, afinal, na terra, junto dos seus. Ou perceber que os promenores materiais aos quais damos tanto de nós, na verdade, de pouco valem, porque quando chega esse momento eterno, alguém dir-nos-á: you can't take it with you.
Ao passar na alfarrabista de Campo de Ourique, hoje de manhã, uma biografia colocada cá fora convidou-me a abri-la e a descobrir as palavras, dentro dessa vida, que se adequavam exactamente ao que sentia, em toda a minha walking contradiction (Tolstoï, Henri Troyat):
"A quelque temps de là, il apprit que son vieil ami, le publiciste Vassili Pétrovitch Botkine, était mort chez lui, le 4 octobre, au cours d'une soirée musicale à laquelle il avait convié beaucoup de monde. N'était-ce pas étrange, ces préparatifs, ces invitations lancées aux quatre coins de la ville, cet orchestre, ces chaises dorées, ces corbeilles de fleurs, ces soucis de buffet, de vins, de toilettes, de préséances et, tout à coup - la culbute? Et lui, comment mourrait-il? En feuilletant son carnet de notes, il retrouva ces lignes qu'il y avait écrites quatre ans auparavant: 'J'attendais des gens que j'aimais... Ils arrivèrent exactement tels que je souhaitais les voir. J'étais heureux. Le soir, je me couchai. Je me trouvais dans cet état de demi-somnolence où l'agitation futile s'apaise et où l'âme se met à parler clairement... Mon âme aspirait à quelque chose, voulait quelque chose. Que puis-je vouloir? me demandai-je avec étonnement. Mes amis sont arrivés. N'est-ce donc pas de cela que j'avais besoin pour recouvrer mon calme? Non, ce n'est pas de cela... De quoi donc alors? Je passai tout en revue... Rien ne put satisfaire en moi ce désir. Et ce désir persistait, persiste encore et constitue même ce qu'il y a de plus important et de plus fort dans mon âme. Je désire ce qui n'existe pas ici, dans ce monde. Mais cela existe quelque part puisque je le désire. Où?... Se régénérer, mourir. Voilà le calme que j'espère et que nous espérons...' Hier, il espérait la mort, aujourd'hui il la craignait. Mais n'est-ce pas le propre de l'homme de mettre toujours, quoi qu'il advienne, de l'espoir dans sa crainte et de la crainte dans son espoir? Désormais, il allait vivre comme un blessé dont on n'a pu extraire la balle. Elle est là, dans la tête. Impossible de l'oublier. Pourtant on la sent à peine. L'hiver vint, la neige entoura la maison, la famille se resserra autour des pôeles allumés, et Léon Tolstoï, peu à peu, reprit confiance en son avenir sur la terre."
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